quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

da homofobia e do sexismo

Há dias, a acompanhar uma deliciosa refeição de centro comercial, tive uma discussão com um amigo. Ele intercalava os seus argumentos com dentadas na pizza, eu tinha posto de lado a minha massa, entretanto já gelada e afogada em azeite, enquanto esbracejava. Reparei que estava a exagerar um bocadinho na parte física quando vi toda a gente a olhar para nós, como se estivéssemos a ter uma discussão conjugal. Não estávamos. Discutíamos porque ele dizia que a homofobia é muito mais violenta para com os homens. Na sua cabeça a coisa era simples: um homofóbico, se vir um homossexual, pode mais facilmente agredi-lo para descontar o seu ódio se se tratar de um homem, mas se vir uma mulher não. Era tudo a preto e branco na cabeça do meu amigo, que até sabe que as discriminações se revelam das mais variadas formas e que as discriminações para com minorias sexuais também envolvem preconceitos de género. Admitia que a maior parte da visibilidade lésbica se encontrava em filmes pornográficos para homens heterossexuais e em cenas de sexualidade gratuita de filmes para "adolescentes". Mas considerava que, não sendo a visibilidade mais positiva, ainda assim era capaz de mudar mentalidades. É que na televisão os gays eram quase sempre representados como bichas burras e as lésbicas como mulheres atraentes e sexualmente activas. E isso parecia-lhe bom, esquecendo-se que a representação lésbica não vai muito para além daí e que não é bem o estereótipo da lésbica camiona que se está ali a tentar destruir. Dizia também que a questão da ausência de agressão física era fundamental. Perguntei-lhe se alguma vez alguém o tinha ido abordar enquanto beijava uma namorada num bar. Perguntei-lhe se alguém alguma vez se ofereceu para se juntar a eles, partindo do princípio que a sexualidade que ele tinha com uma qualquer namorada não era satisfatória. Falei-lhe do falocentrismo e, para minha surpresa, pareceu estar a pensar nisso pela primeira vez. Perguntei-lhe também se não sabia que os homens tinham sido educados para não bater em mulheres. Em público, claro. Se isso não explicava a diferença de violência física. Perguntei-lhe também se tinha noção do número de lésbicas violadas. Se sabia que isso acontecia em imensos sítios, não só na África do Sul. Ele saiu da discussão a saber algo que já devia ter ouvido imensas vezes mas sobre o qual nunca tinha pensado: que a discriminação para com as mulheres não se estende só às relações sociais e ao trabalho. Eu "ganhei" a discussão mas perdi o almoço. Na altura não fiquei muito satisfeita.

2 comentários:

Cassilda Pascoal disse...

Pergunta-lhe se sabe que a discriminação pode passar pela pessoa com quem estarias reduzir a tua condição humana e social à falta de uma pila, num tom acusatório.

Im.no.lady disse...

sim, porque toda a gente sabe que as mulheres são homens "incompletos".
ahahaha.